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Miscelâneas em Mim HISTORINHA FEINHA Texto e Edição: Nanci Kirinus; música Russa do CD Rimsky-Korsakov Concerto for trombone and Miltary Band.
Escrito por Nanci A.KI às 21h52 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] CACUVA
Era dia de mercado. Com sua fome de leão aguardava ansiosamente os pais chegarem das compras. Ao primeiro sinal do motor do carro na garagem, foi logo receber as sacolas recheadas de novas guloseimas em forma de potes e pacotes. Sentia prazer em abrir as coisas recém saídas das prateleiras do mercado. O pacote de bolacha recheada foi a primeira vítima. A bandeja de presunto fresquinho foi aberta com o cuidado e delicadeza de um cirurgião plástico, estica dali, corta daqui e desliza suavemente para o prato de frios. A geléia de uva foi a escolhida por ele naquele dia. No entanto, poucos segundos antes de concretizar o movimento giratório de quem tenta abrir um vidro de geléia ainda virgem, a mãe dá um grito: - NÃO! O leão, digo, o menino olha assustado para a mãe. - Não ouse abrir isto antes de terminar a geléia de cacau que está há mais de uma semana na geladeira! - Mas... Mamãe! Por quê? A de uva é mais gostosa! - Bem por isso. Daí ninguém mais come a que está na geladeira e eu me nego a jogar comida fora nesta casa. Vamos comer primeiro a de cacau. Ele aprendeu que não adiantava discutir com a mãe essas coisas. Ela era espanhola e tinha um senso de economia herdado de seus antepassados maltratados pela Guerra. Colocou a geléia de cacau na mesa, e lamentou silenciosamente o fato do vidro ser grande e ainda estar cheio. Depois do ocorrido, o desânimo tomou conta daquele lanche da tarde. Comeu em silêncio com o pensamento na outra geléia. Estava tão cabisbaixo que o pai estranhou: - Nossa! Milagre! Nosso leãozinho esta comendo moderadamente hoje! Está fazendo regime? Olhou com ódio para o sorriso cúmplice que o pai e a mãe se deram ao falar dele. Ficou quieto para não estragar mais ainda aquele momento sagrado diante da mesa. Mas o pai, estimulado pelo sorriso da mãe, cutucava mais ainda: - Não precisa fazer regime. A gente gosta de criança fofa. Engoliu seco a frase do pai, esperou o fim daquela sessão família e na hora do noticiário da televisão foi direto para o quarto. Mas não foi sozinho. Levou consigo um copo de leite, a geléia de cacau, oito pães e algumas bolachas. Trancou a porta do quarto e preparou-se para um ritual de prazer e deleite: em primeiro lugar, reuniu as almofadas e o cobertor. Depois, juntou os livros preferidos, alguns joguinhos e mais alguns gibis e... Pronto! Todas as coisas que gostava de fazer comendo estavam ali, ao seu redor, prontos para serem acionados. Os pais estranharam o sumiço tão repentino do filho para o quarto, mas julgaram ser coisa de criança com birra e não o incomodaram mais. No dia seguinte, ajudou a arrumar a mesa do café da manhã. Colocou os pratos, os pães, o leite, a manteiga e, também, o pote novinho da geléia de uva. A mãe olhou de soslaio, mas não queria discutir naquele dia, estava com dor de cabeça, somente falou calmamente: - Pega a geléia de cacau, semana que vem a gente abre a de uva. O garoto, com voz triunfal, falou: - A geléia de cacau terminou, mamãe. Ela olhou pra ele desconfiada, duvidando do que ouviu. Mas o menino nem deixou ela falar e já completou, mostrando o vidro vazio: - Olha aqui. Acabou ontem mesmo, não lembra? A mãe estava indisposta demais para questionar o filho. Apesar de se sentir triunfante, o garoto sentou-se a mesa sem fome nenhuma, pelo contrário, estava com uma forte sensação de abdômen estufado pela proeza realizada na noite anterior. Mas não podia se render, pegou a geléia de uva com um sorriso nos olhos, olhou para a mãe, e deu a primeira mordida bem lentamente, mastigou mais lentamente ainda e foi ficando branco: - Filho, filhote, o que você tem? Filho... - Uuuuuug... Blaaaaargth... Uuuuuuug.... Plaaaaaaft. Surge, então, uma geléia de cacuva sobre a mesa.
Escrito por Nanci A.KI às 15h48 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] HISTORINHA ORDINÁRIA Texto e Edição: Nanci Kirinus; Ilustrações retiradas do banco de imagens do Google; música do CD Jazz Gitano (vol.1), "Savoir Vivre", de Martin Weiss. Escrito por Nanci A.KI às 14h43 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] MAL DE FAMÍLIA Texto e Edição de Nanci Kirinus, Música de Pink Floyd - "If", Colaboração de Vímerson Cavanilas. Escrito por Nanci A.KI às 15h10 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] CHARADA DE ÔNIBUS O ônibus quase vazio permitia aquele momento de tagarelice entre eles. Sentei-me estrategicamente próxima aos dois. Os gestos exagerados do cobrador e a expressividade do rosto do motorista, mostradas por meio do espelho retrovisor, davam-me a sensação de assistir a um filme, ou melhor, a uma peça teatral. Cenas da vida real. A conversa girava em torno do futebol, da doença de um tal Batista, da mulher de João Pedro, do calor, da Prefeitura... Confesso que minha atenção oscilou várias vezes entre o trânsito lá fora e aquela conversa ora monótona, ora interessante. Mas foi uma frase do motorista que me trouxe definitivamente para aqueles dois personagens: - Você gosta de charadas? O cobrador olhou um pouco assustado com o ar infantil da pergunta, mas logo entrou no jogo: - Ah, sempre fui muito bom nisso!! Manda aí!! O Motorista nem parou pra pensar e já foi soltando: - O que é o que é, que TODOS têm dois, VOCÊ tem só um e EU não tenho nenhum? Pela primeira vez, desde que subi naquele ônibus, senti um silêncio no ambiente. A resposta eu já sabia, mas como a conversa não era comigo, fiquei aguardando ansiosamente a reação do cobrador. Ele colocou a mão no queixo, abaixou a cabeça e, enquanto isso, o motorista dava seu meio sorriso pelo espelho retrovisor. O silêncio se estendeu por mais ou menos umas duas paradas de ônibus, até que o cobrador levantou a cabeça e meio titubeante perguntou: - O amor?! O motorista na sua exagerada expressividade, levantou as sobrancelhas bem levantadas e deu um pulo para trás: - Como assim? O cobrador, agora vermelho, juntou toda a sua lógica e tentou explicar da forma mais segura que pôde: - Bom, TODOS meus amigos tem dois amores, VOCÊ tem só uma e EU não tenho nenhum amor. O motorista fez cara de que não gostou, balançou a cabeça negativamente: - Você é louco!!! Não, não é isso!!! Pense mais um pouco! Olha presta atenção, de novo: TO-DOS tem dois, VO-CÊ tem um só, e EU... Entendeu?... EUUU não tem nenhum. Mais uma vez o silêncio reinava no ambiente. O pobre do cobrador ficou pensativo por mais umas três paradas e o motorista mostrava um quê de decepção pelo companheiro de prosa. Enfim, o cobrador se entrega: - Ah, essa é difícil, fala aí o que é! O motorista, aliviado, desabafa: - É o Ó! O cobrador, num gesto de indignação solta uma ecoante interrogação pelo ar: - O que? - Oras, a letra Ó! TO-DOS tem dois, VO-CÊ tem um e EU não tem nenhum! O cobrador, encolheu-se em seu banco, mostrava a agonia do pensamento querendo chegar a um entendimento, mas não conseguia e pediu ajuda novamente: - Mas... Fala, então, o significado disso aí! O que é que tem o Ó? O motorista, inconformado com a ignorância do amigo, explicou de forma irritada mais uma vez: - Nossa!! Não acredito que você não entendeu! Olha só, TODOS tem dois “o”, VOCÊ tem um só e EUUUU não tem nenhum! Entendeu? O cobrador, sem afirmar nada, balbuciou: - Mas... Que estranho... Novamente, silêncio no ônibus. Ele seguia pensando na resposta e sentir sua agonizante ignorância apertava-me o peito. Sua expressão de angústia profunda contagiou o ambiente. O coitado colocava as duas mãos na cabeça, olhava pra cima, olhava pros lados, abaixava-se, e seu olhar era de interrogação constante. Não se conformava em não compreender a maldita charada. Faltavam três paradas para eu desembarcar, e a agonia de descer sem saber se ele ia entender causava-me rebuliços no estômago. Fitei-o por algum tempo para ver se olhava pra mim, a fim de eu puxar uma conversa e retomar o tema da charada e, enfim, explicar-lhe melhor o sentido da resposta. Mas não olhava, parecia compenetrado em si mesmo, e em seu rosto percebia-se cada vez mais a amargura em não conseguir atingir o raciocínio correto. Não agüentei. Rascunhei didaticamente em uma folha de papel a explicação da resposta, sublinhando e enumerando os “os” de cada palavra. Estava tudo planejado: assim que chegasse a minha vez de descer, entregaria o papel dobrado para o cobrador. Bom, o momento chegou, levantei-me solenemente e, como se tivesse uma grande missão a cumprir, olhei firmemente para o mísero cobrador, que assim que me viu, enrubesceu de repente e baixou os olhos de uma tal forma que me fez desistir daquilo tudo. Parada final, charada sem fim... Coloquei o papel no bolso e desci daquele ônibus com mil interrogações dentro de mim... NOTINHA DE RODAPÉ
Texto: Nanci Kirinus; Música do vídeo: introdução instrumental de "Kaczmarski", de Bob Dylan. Escrito por Nanci A.KI às 23h43 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] DESTINO DE LOBO TEXTO DE NANCI KIRINUS, MÚSICA "LAMENTOS" DE JACOB DO BANDOLIN (CHORINHO) Escrito por Nanci A.KI às 15h03 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] CALADA DA NOITE Ana, anã, Aninha: Seu nome, seu sentimento no mundo, seu apelido. Veio de forma descuidada, sem muita festa e comemoração pela sua existência. Cresceu sentindo-se em deslocamento constante, não fazia parte daquela trama de acontecimentos cotidianos. Fofocas, fingimentos, rancores. Questionava a inteligência humana. Seu cachorro e seu gato pareciam-lhe muito mais sábios. Sentia a vida de outra forma. Ouvir silenciosamente seu coração pulsando era mais importante que gastar a vida com picuinhas presentes na boca dos outros. Tinha ouvidos sensíveis, por isso preferia seus discos e livros ao falatório dos encontros de família. Seu passatempo era sentir o sossego da vida pela janela que apontava a madrugada. Todo sábado, duas da manhã, abria sua janela para compartilhar o nada e trocar pensamentos ao lado de sua gata de olhos amarelados. Gostava do cheiro da rua deserta, dos automóveis ausentes e da vida passando sem pressa. E foi numa noite sem luar que Ana viu tudo. Naquele dia de lua apagada, presenciou uma vida ir embora pelas mãos de outra vida. Tudo ocorreu sob os quatros olhos daquela janela. Primeiro o som de passos correndo, depois a luz em foco sobre uma cabeça e um som ensurdecedor. Enquanto um corpo caía, outro corpo corria em direção oposta. Era essa a seqüência de acontecimentos que ficou registrada para sempre em sua memória. As luzes ao redor começaram a acender uma por uma, outras janelas se abriram, as vozes em murmurinho aumentavam. Ana, paralisada, sentiu um toque em seu ombro. Era o pai. “Dorme, filha, não quero que veja isto”. Tarde demais. Ana tinha visto tudo. Do início ao fim. Sabia que das duas únicas testemunhas que viram a hora exata do sangue explodir, somente uma poderia falar, contar e descrever para os homens da Lei o ocorrido. Mas Ana não acreditava na Lei dos homens e, desaninhada, foi para cama fingir que dormia, enquanto pensava, enquanto calava. Texto e Foto: Nanci Kirinus; Música: Alan's Psychedelic Breakfest - Pink Floyd Escrito por Nanci A.KI às 10h52 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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