O ônibus quase vazio permitia aquele momento de tagarelice entre eles. Sentei-me estrategicamente próxima aos dois. Os gestos exagerados do cobrador e a expressividade do rosto do motorista, mostradas por meio do espelho retrovisor, davam-me a sensação de assistir a um filme, ou melhor, a uma peça teatral. Cenas da vida real. A conversa girava em torno do futebol, da doença de um tal Batista, da mulher de João Pedro, do calor, da Prefeitura... Confesso que minha atenção oscilou várias vezes entre o trânsito lá fora e aquela conversa ora monótona, ora interessante. Mas foi uma frase do motorista que me trouxe definitivamente para aqueles dois personagens:
- Você gosta de charadas?
O cobrador olhou um pouco assustado com o ar infantil da pergunta, mas logo entrou no jogo:
- Ah, sempre fui muito bom nisso!! Manda aí!!
O Motorista nem parou pra pensar e já foi soltando:
- O que é o que é, que TODOS têm dois, VOCÊ tem só um e EU não tenho nenhum?
Pela primeira vez, desde que subi naquele ônibus, senti um silêncio no ambiente. A resposta eu já sabia, mas como a conversa não era comigo, fiquei aguardando ansiosamente a reação do cobrador. Ele colocou a mão no queixo, abaixou a cabeça e, enquanto isso, o motorista dava seu meio sorriso pelo espelho retrovisor. O silêncio se estendeu por mais ou menos umas duas paradas de ônibus, até que o cobrador levantou a cabeça e meio titubeante perguntou:
- O amor?!
O motorista na sua exagerada expressividade, levantou as sobrancelhas bem levantadas e deu um pulo para trás:
- Como assim?
O cobrador, agora vermelho, juntou toda a sua lógica e tentou explicar da forma mais segura que pôde:
- Bom, TODOS meus amigos tem dois amores, VOCÊ tem só uma e EU não tenho nenhum amor.
O motorista fez cara de que não gostou, balançou a cabeça negativamente:
- Você é louco!!! Não, não é isso!!! Pense mais um pouco! Olha presta atenção, de novo: TO-DOS tem dois, VO-CÊ tem um só, e EU... Entendeu?... EUUU não tem nenhum.
Mais uma vez o silêncio reinava no ambiente. O pobre do cobrador ficou pensativo por mais umas três paradas e o motorista mostrava um quê de decepção pelo companheiro de prosa. Enfim, o cobrador se entrega:
- Ah, essa é difícil, fala aí o que é!
O motorista, aliviado, desabafa:
- É o Ó!
O cobrador, num gesto de indignação solta uma ecoante interrogação pelo ar:
- O que?
- Oras, a letra Ó! TO-DOS tem dois, VO-CÊ tem um e EU não tem nenhum!
O cobrador, encolheu-se em seu banco, mostrava a agonia do pensamento querendo chegar a um entendimento, mas não conseguia e pediu ajuda novamente:
- Mas... Fala, então, o significado disso aí! O que é que tem o Ó?
O motorista, inconformado com a ignorância do amigo, explicou de forma irritada mais uma vez:
- Nossa!! Não acredito que você não entendeu! Olha só, TODOS tem dois “o”, VOCÊ tem um só e EUUUU não tem nenhum! Entendeu?
O cobrador, sem afirmar nada, balbuciou:
- Mas... Que estranho...
Novamente, silêncio no ônibus. Ele seguia pensando na resposta e sentir sua agonizante ignorância apertava-me o peito. Sua expressão de angústia profunda contagiou o ambiente. O coitado colocava as duas mãos na cabeça, olhava pra cima, olhava pros lados, abaixava-se, e seu olhar era de interrogação constante. Não se conformava em não compreender a maldita charada. Faltavam três paradas para eu desembarcar, e a agonia de descer sem saber se ele ia entender causava-me rebuliços no estômago. Fitei-o por algum tempo para ver se olhava pra mim, a fim de eu puxar uma conversa e retomar o tema da charada e, enfim, explicar-lhe melhor o sentido da resposta. Mas não olhava, parecia compenetrado em si mesmo, e em seu rosto percebia-se cada vez mais a amargura em não conseguir atingir o raciocínio correto. Não agüentei. Rascunhei didaticamente em uma folha de papel a explicação da resposta, sublinhando e enumerando os “os” de cada palavra. Estava tudo planejado: assim que chegasse a minha vez de descer, entregaria o papel dobrado para o cobrador. Bom, o momento chegou, levantei-me solenemente e, como se tivesse uma grande missão a cumprir, olhei firmemente para o mísero cobrador, que assim que me viu, enrubesceu de repente e baixou os olhos de uma tal forma que me fez desistir daquilo tudo. Parada final, charada sem fim... Coloquei o papel no bolso e desci daquele ônibus com mil interrogações dentro de mim...
Ana, anã, Aninha: Seu nome, seu sentimento no mundo, seu apelido. Veio de forma descuidada, sem muita festa e comemoração pela sua existência. Cresceu sentindo-se em deslocamento constante, não fazia parte daquela trama de acontecimentos cotidianos. Fofocas, fingimentos, rancores. Questionava a inteligência humana. Seu cachorro e seu gato pareciam-lhe muito mais sábios. Sentia a vida de outra forma. Ouvir silenciosamente seu coração pulsando era mais importante que gastar a vida com picuinhas presentes na boca dos outros. Tinha ouvidos sensíveis, por isso preferia seus discos e livros ao falatório dos encontros de família. Seu passatempo era sentir o sossego da vida pela janela que apontava a madrugada. Todo sábado, duas da manhã, abria sua janela para compartilhar o nada e trocar pensamentos ao lado de sua gata de olhos amarelados. Gostava do cheiro da rua deserta, dos automóveis ausentes e da vida passando sem pressa.
E foi numa noite sem luar que Ana viu tudo. Naquele dia de lua apagada, presenciou uma vida ir embora pelas mãos de outra vida. Tudo ocorreu sob os quatros olhos daquela janela. Primeiro o som de passos correndo, depois a luz em foco sobre uma cabeça e um som ensurdecedor. Enquanto um corpo caía, outro corpo corria em direção oposta. Era essa a seqüência de acontecimentos que ficou registrada para sempre em sua memória. As luzes ao redor começaram a acender uma por uma, outras janelas se abriram, as vozes em murmurinho aumentavam. Ana, paralisada, sentiu um toque em seu ombro. Era o pai. “Dorme, filha, não quero que veja isto”. Tarde demais. Ana tinha visto tudo. Do início ao fim. Sabia que das duas únicas testemunhas que viram a hora exata do sangue explodir, somente uma poderia falar, contar e descrever para os homens da Lei o ocorrido. Mas Ana não acreditava na Lei dos homens e, desaninhada, foi para cama fingir que dormia, enquanto pensava, enquanto calava.